OPINIÃO: A Colisão entre o conceito e a razão
Desmascara-se a maior das contradições humanas: a nossa insistência em simular virtudes que recusamos praticar. Esta colisão manifesta-se nos pilares fundamentais da nossa existência social e individual:
Pobreza (A escassez mental)
Reduzir a pobreza à mera falta de meios de subsistência é um erro crasso. O verdadeiro microcosmo da indigência abrange a mentalidade, o espírito e o conhecimento. Um estômago vazio pode ser alimentado num dia; uma mente vazia e sem perspetivas perpetua a miséria por gerações. A carência de alimentos é grave, mas a pobreza intelectual e a incapacidade de pensar criticamente são as formas mais profundas e crónicas de miséria.
Fé (A ausência de si mesmo)
Quando se fala de fé, a sociedade remete o conceito imediatamente para Deus, para a religião e para as instituições sagradas. No entanto, alienámos a nossa própria força interior. Onde está a fé na nossa capacidade de agir? Acreditar em nós mesmos não é um ato de arrogância, mas a assunção da responsabilidade pelo próprio destino. Esperamos por milagres externos enquanto esquecemos o milagre da nossa própria agência.
Governação (O teatro do poder)
O conceito original de governar baseia-se no serviço público, na organização e no zelo pelo coletivo. Na prática, a governação foi corrompida pela necessidade de reluzir como chefe, pela ostentação e pela imposição autoritária. Onde ficou a essência? O poder moderno tornou-se um palco de vaidades, onde o privilégio do cargo abafa a utilidade do impacto real na vida dos governados.
Democracia (A ilusão da escolha)
Vende-se a alternância de poder como a salvação dos povos. Contudo, na finalidade prática, ninguém ou poucos pensam criticamente. O conceito foi reduzido a um jogo de cadeiras eleitoral e burocrático, onde se muda o rosto do governante para que tudo continue na mesma. Esquece-se, assim, que o fim último da democracia deveria ser a justiça social, o progresso comum e a verdadeira soberania popular.
Justiça (O desequilíbrio social)
Limitámos a justiça aos tribunais, aos códigos, aos juízes e aos advogados. Esta visão mecânica ignora o equilíbrio social e a equidade. Quando o sistema se preocupa apenas com a literalidade da lei e com a defesa dos privilégios de quem pode pagar por ela, a justiça fenece. Uma sociedade que relega a distribuição justa de oportunidades nunca será verdadeiramente moral, por maior que seja o rigor dos seus tribunais.
Educação (A fábrica de obediência)
A educação idealizada visa a emancipação da mente, o estímulo ao pensamento crítico e o desenvolvimento humano. Na realidade contemporânea, porém, transformou-se numa linha de montagem para o mercado de trabalho. Ensina-se a memorizar, a repetir e a obedecer, em vez de incentivar a questionar e a criar. A vaidade humana faz com que se valorizem mais os diplomas e os títulos académicos do que a sabedoria real e a empatia.
A Vitória da Aparência
O diagnóstico desta colisão é claro: o ser humano prefere parecer a ser. É infinitamente mais fácil ostentar poder na governação, simular fé numa divindade, exibir diplomas na educação ou camuflar a ignorância do que viver a essência real de cada um destes conceitos. Enquanto a vaidade e a malícia ditarem o comportamento humano, as nossas mais belas definições continuarão a ser apenas palavras vazias, e a razão continuará a ser a principal testemunha da nossa própria decadência moral.
O Selo da Razão
Contra esta decadência, resta-nos o resgate do bom viver. Viver bem significa viver na razão; e viver na razão é alcançar a plena paz de espírito e de alma. Este estado de ser, traduz-se no compromisso de:
Cultivar um conhecimento com conteúdo, desenvolvendo a autonomia para sustentar uma opinião própria; Aplicar o saber para criar soluções viáveis, transformando o intelecto numa ferramenta prática e educando a mente para o humanismo.
Manuel Humberto Baquisse é formado em Física e Astronomia, professor e docente de Metodologia e Práticas de Ensino de Física e Métodos Quantitativos. Com um percurso diversificado que inclui a direção escolar e a gestão em multinacional petrolífera, é também dirigente desportivo, entusiasta da escrita e da paz, e um defensor de valores fundamentados na amizade séria e desinteressada.
Categoria:
Opinão
