OPINIÃO: O Conformismo intelectual e a passividade diante das normas instituídas
Quem protege as regras que nos anulam?
Vivemos rodeados de mentes tituladas que abdicaram da sua própria voz. Nas universidades, assistimos à proliferação de formandos e formados que funcionam como meras caixas de ressonância de bibliografias consagradas.
Nos tribunais, nas igrejas e nos partidos políticos, deparamo-nos com técnicos, juristas e fiéis que se acomodam na letra fria da lei, dos estatutos e dos dogmas. Usam o texto sagrado ou o regulamento burocrático como um escudo medieval para evitar o esforço e o risco de forjar um entendimento próprio.
O conhecimento real não é um arquivo inerte de factos; é poder em movimento. Trata-se da capacidade contínua de transformar o nosso Ser, orientar o nosso Estar, validar o nosso Fazer e justificar o nosso Ter.
Tudo o que o outro escreveu ou legislou não constitui uma verdade absoluta, mas apenas a sua experiência e perspetiva. Assumir essa herança de forma passiva não é respeito pelo passado: é preguiça intelectual.
O perigo deste conformismo torna-se evidente quando compreendemos uma verdade crua: quem cria uma regra tende a construí-la em seu próprio benefício. As estruturas institucionais moldam regulamentos e dogmas com o propósito de se autoperpetuarem e de protegerem o status quo.
Quando um cidadão, um jurista ou um crente abdica da postura crítica e se recusa a testar a realidade através da vivência viva, assina um termo de submissão. Permite, assim, que uma regra desenhada para o benefício alheio dite os limites da sua própria existência.
Urge resgatar o dever indelével de cada mente consciente: colher a opinião alheia apenas como coordenada inicial, submetê-la ao crivo da experiência própria e expandir o domínio da matéria.
Num mundo onde as máquinas já mimetizam a repetição com perfeição mecânica, o Homem só justifica a sua essência se for capaz de quebrar o eco, desafiar a regra e desvendar os segredos da natureza para o benefício real da humanidade.
Manuel Humberto Baquisse é formado em Física e Astronomia, professor e docente de Metodologia e Práticas de Ensino de Física e Métodos Quantitativos. Com um percurso diversificado que inclui a direção escolar e a gestão em multinacional petrolífera, é também dirigente desportivo, entusiasta da escrita e da paz, e um defensor de valores fundamentados na amizade séria e desinteressada.
Categoria:
Opinão
