Editorial: O poder não impede socialização - a política exige aproximação


Para muitos, a ascensão a cargos de relevância, seja no sector público ou privado, parece operar uma alteração na visão periférica, onde o "eu" se expande e o "nós" se torna uma massa abstrata e distante. No entanto, o título desta reflexão serve como um lembrete urgente: o exercício da autoridade não é um salvo-conduto para o isolamento. 

A imagem que abre este texto o abraço da Governadora Suzana Abreu a uma cidadã idosa mostra como quem está no degrau mais baixo da escada se sente quando quem está no topo lhe estende a mão, ainda que seja apenas para dizer um simples "olá!". Aquele que está no topo, como vemos na fotografia, não o faz por esforço; faz porque também veio de baixo e viveu a mais pura experiência do amanhã a Deus pertence.

Muitas vezes, quem ascende acredita que a liturgia do cargo exige uma separação física e emocional. Confunde-se solenidade com arrogância e discrição com invisibilidade. Cria-se uma redoma de assessores, protocolos e agendas intransponíveis que, embora visem proteger a eficiência do líder, acabam por asfixiar a sua sensibilidade.

O poder que não se comunica, que não toca o chão da realidade e que não se permite a socialização, torna-se um poder cego. A política, na sua essência mais pura, é a arte da convivência e da gestão do comum. Logo, é impossível gerir o comum se o gestor se retira da comunidade.

Diferente do que pensam os entusiastas do autoritarismo tecnocrático, a política exige aproximação. É no aperto de mão, na escuta ativa e no trânsito pelas ruas que se capta o "termómetro" social que nenhum gráfico de Excel consegue traduzir. O líder que socializa desmistifica a figura do "chefe" e constrói a figura do "guia". Quando quem decide conhece o rosto de quem é afetado pela decisão, a ética prevalece sobre a conveniência.

A história é implacável com os líderes que se fecharam entre gabinetes e casas protocolares. Cercado apenas por quem diz "sim", o ocupante do poder perde a capacidade de autocrítica. O abandono de velhos amigos e o desprezo pelos que ficaram na base é o primeiro passo para a queda.

Mudar de posição na hierarquia social é natural; mudar de essência é uma falha de caráter ou de compreensão do papel que se ocupa. O poder é efêmero é um empréstimo do tempo ou do povo.

Aqueles que entendem que a política exige aproximação não apenas governam melhor, mas saem do poder com o único património que o cargo não pode fabricar: o respeito genuíno. Afinal, a verdadeira grandeza não está em quão alto subiu, mas em como estende a mão para quem ainda está nos degraus de baixo.