Confrontos armados em Mogadíscio agravam crise política e dividem lideranças na Somália

Combates cercaram residências de líderes da oposição. Na base do impasse está uma polémica reforma constitucional que estende o mandato do Presidente Hassan Sheikh Mohamud. A capital da Somália, Mogadíscio, voltou a ser palco de intensos confrontos armados entre forças governamentais e grupos armados aliados à oposição. O surto de violência, que durou várias horas, expõe o aprofundamento da fratura política no país e a forte contestação à liderança do Presidente Hassan Sheikh Mohamud.


Os combates concentraram-se essencialmente em zonas residenciais da capital, circundando as habitações do antigo Presidente da República, Sharif Sheikh Ahmed, e do antigo Primeiro-Ministro, Hassan Ali Khaire, que figuram actualmente como os principais rostos da oposição ao atual regime.

A polícia nacional somali justificou a ação como uma operação de segurança de grande envergadura destinada a neutralizar milícias fortemente armadas. Em paralelo, o Ministro da Defesa da Somália, Ahmed Moallim Fiqi, acusou formalmente o antigo Primeiro-Ministro Hassan Ali Khaire de tentar desestabilizar e derrubar o Executivo através do recurso à força militar.

A oposição rejeitou categoricamente os argumentos do Governo. Através das redes sociais, Hassan Ali Khaire denunciou o que chamou de "ofensiva militar direcionada contra adversários políticos" e acusou o Chefe de Estado de tentar silenciar os críticos. Segundo relatos dos líderes contestatários, as forças governamentais recorreram ao uso de armamento pesado em áreas densamente povoadas, provocando vítimas entre a população civil.

A escalada de violência está diretamente ligada a uma controversa alteração à Constituição aprovada pelo Parlamento. O novo texto introduz o sufrágio universal direto em substituição do histórico sistema indireto onde os líderes dos clãs tradicionais escolhiam os deputados e alarga o mandato presidencial e legislativo de quatro para cinco anos.

O campo presidencial defende que a medida visa democratizar o país, mas a alteração resultou no prolongamento automático do mandato do actual Presidente. A oposição considera o acto ilegal e acusa Hassan Sheikh Mohamud de criar um vazio eleitoral intencional para se perpetuar no poder, uma vez que o Executivo declarou um "período de transição" sem avançar com datas para a realização de novas eleições.

Perante o cenário de forte instabilidade e o risco de desvio de recursos no combate ao grupo extremista Al-Shabaab, a Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu um comunicado a apelar à contenção imediata e à retoma do diálogo entre as diferentes sensibilidades políticas.