OPINIÃO: Esqueçam a política - Focam-se na solidariedade


As imagens que chegam das margens do Rio Cavaco, em Benguela, não pedem interpretações ideológicas, nem aceitam o ruído das conveniências partidárias. Elas exigem, acima de tudo, humanidade.

O transbordo das águas, que arrastou sonhos, destruiu habitações e, tragicamente, ceifou vidas, coloca a província de Benguela e o país diante de um espelho que reflete a nossa maior virtude ou a nossa mais gritante omissão.

Neste momento de "profunda consternação", a bandeira que deve tremular mais alto não é a de qualquer formação política, mas sim a da solidariedade nacional.

O sofrimento de uma família desalojada no litoral não tem cor partidária; a dor de quem perdeu um ente querido para a fúria da natureza não se resolve com retórica, mas com assistência, abrigo e conforto.

É encorajador ver a pronta intervenção dos órgãos de Proteção Civil e das forças de defesa. Contudo, a magnitude desta catástrofe exige que a resposta vá além do funcionalismo estatal.

É hora de a sociedade civil, as igrejas, as empresas e os cidadãos individuais agirem como um corpo único. A política, com as suas naturais divergências e debates sobre o ordenamento do território e infraestruturas, terá o seu tempo de antena. Haverá, sim, o momento de cobrar soluções estruturantes para que o Rio Cavaco não seja um caso recorrente o que venha se multiplicar em outras regiões do país. Mas esse momento não é agora.

Neste momento, a prioridade é o prato de comida para quem nada tem, o teto para quem ficou ao relento e a palavra de esperança para quem viu a correnteza levar o esforço de uma vida.

Angola tem demonstrado, ao longo da sua história, uma resiliência admirável perante as adversidades. Que esta crise em Benguela sirva para reafirmar que, antes de sermos militantes ou simpatizantes, somos irmãos de destino. Que os discursos se transformem em atos de entrega e que a ajuda chegue com a mesma rapidez com que a água subiu.

Esqueçamos, por agora, as agendas de gabinete. O foco total deve estar em Benguela. Porque, no final do dia, a política só faz sentido se servir para proteger e dignificar a vida humana. E hoje, a vida em Benguela clama por nada menos que a nossa união absoluta.

Por: José Riscove - Cidadão do bem.