Níger prepara ofensiva jurídica contra exploração de urânio francesa

O governo de transição do Níger, liderado pelo General Abdourahamane Tiani, deu início a uma fase estratégica para responsabilizar a multinacional francesa, Orano (antiga Areva) por décadas de exploração de urânio no país. 


O presidente recebeu, este sábado, um comité nacional de peritos encarregue de quantificar os danos ambientais, sociais e de saúde resultantes da atividade mineira em Arlit e Akokan. A missão dos especialistas é de uma escala sem precedentes e foca-se em provas técnicas irrefutáveis para fundamentar uma futura batalha legal.

Esta iniciativa surge num contexto de profunda alteração nas relações entre Niamey e Paris. Desde o golpe de Estado de julho de 2023, as autoridades nigerinas têm revisto acordos militares e económicos, contestando o que classificam como "relações desiguais" de seis décadas. O urânio nigerino foi, durante décadas, um pilar fundamental para a autonomia energética e a indústria nuclear de França, com contrapartidas locais agora postas em causa.

O objetivo do relatório pericial é servir de prova central numa ação judicial para exigir compensações financeiras e a reabilitação total das áreas exploradas. Se avançar, o processo poderá estabelecer um marco jurídico no continente, forçando multinacionais extrativas a responderem pelo legado ambiental das suas operações em solo africano.

Especialistas em geopolítica indicam que o Níger utiliza esta "ofensiva científica" como alavanca para renegociar contratos mineiros a partir de uma posição de força, exigindo não apenas maiores receitas, mas a reparação histórica de danos.