EDITORIAL: Cabinda e o labirinto energético
A energia elétrica em Cabinda deixou, há muito, de ser uma questão meramente técnica para se tornar um teste de resiliência para o sector da indústria que vê o seu desenvolvimento cada vez mais distante e, claro, um teste psicológico para os seus cidadãos.
O actual cenário, marcado por interrupções sistemáticas nas turbinas da Central Térmica de Malembo, volta a colocar a província num estado de "penumbra assistida", onde as restrições no fornecimento ditam o ritmo da economia e o bem-estar doméstico.
A reincidência de avarias no Malembo levanta questões inevitáveis sobre a manutenção preventiva e a vida útil dos equipamentos. Não se trata apenas de "uma peça que falhou", mas de um sistema que parece operar constantemente no limite da exaustão.
Quando as turbinas silenciam, o prejuízo é ruidoso: pequenos negócios perdem stock, a indústria estagna e o cidadão comum vê o custo de vida disparar com a perda de alimentos e o consumo desenfreado de combustível para geradores particulares.
A decisão do Governo em reativar o projecto de fornecimento a partir da República Democrática do Congo (RDC) é uma medida de emergência compreensível, mas que carrega consigo um sabor agridoce. Se, por um lado, renova a esperança de estabilidade energética, por outro, sublinha a nossa persistente dependência externa para um serviço básico. A cooperação transfronteiriça é estratégica, mas caso se concretize, deve ser vista apenas como o balão de oxigénio enquanto o pulmão local não recupera a sua plena capacidade.
Talvez a nossa sorte energética esteja na interligação à rede nacional ou na central fotovoltaica anunciada recentemente pela PRODEL. Este último caminho é, sem dúvida, o da modernidade e da sustentabilidade. A diversificação da matriz energética, aproveitando o potencial solar da nossa região, é a resposta lógica para quebrar o monopólio da dependência térmica.
Contudo, o tempo da engenharia nem sempre coincide com a urgência da fome ou do trabalho. O desafio aqui é a celeridade. Cabinda não pode esperar por "amanhãs solares" enquanto o seu "hoje" é assombrado pela escuridão que alonga as horas de criminalidade e impõe às famílias cálculos de sobrevivência: (hoje é nosso dia de energia, amanhã é do bairro vizinho).
Anúncios ou justificativas técnicas não iluminam casas nem congelam frescos. A energia é a espinha dorsal do desenvolvimento; sem ela, qualquer plano de crescimento para a província corre o risco de ser apenas uma boa intenção guardada numa gaveta escura.
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Editorial
