EDITORIAL: Chefe, não me esquece - A cobrança do bajulador
A bajulação é uma prática que transcende tempos e geografias, mas que em determinados contextos atinge níveis alarmantes de normalização. Em alguns ambientes, especialmente onde a meritocracia cede espaço à "lealdade artificial", o bajulador transforma-se em um personagem indispensável no palco das relações de poder. Sua arma é o elogio, sua estratégia é a adulação constante, e sua motivação é quase sempre o interesse próprio.
O bajulador típico é sagaz. Ele observa atentamente, analisa gestos e palavras, e encontra brechas para encaixar o comentário que agrada, o gesto que cativa. "Chefe, não me esquece", sussurra ele, quando quer cobrar pela bajulação feit durante um período. É como se plantasse uma semente de obrigação no coração do bajulado.
Por isso, não se engane: o bajulador não quer proximidade por admiração genuína. Ele é um estrategista que percebe o poder como uma fonte inesgotável de privilégios. Para ele, o poder do outro é um trampolim, não um fim em si mesmo.
Durante a quadra festiva, a bajulação assume roupagens sazonais. É a época em que mensagens recheadas de votos de prosperidade chegam acompanhadas de pequenos "alertas e pedidos".
"Chefe, cuidado com fulano, ele não é dos nossos", "chefe, não esquece boas festas para os teus sobrinhos"; são frases que aparentam ser simples, mas carregadas de intriga e mendigacidade.
Assim, o bajulador, ao mesmo tempo em que tece elogios, mina relações, garantindo que sua posição seja inquestionável. Ele é o arauto de boas notícias quando convém, e o mensageiro do caos quando necessário.
Porém, há algo de corrosivo nessa dinâmica. A bajulação, quando aceita e até encorajada, transforma líderes em prisioneiros de uma bolha. Eles ouvem apenas o que lhes convém, vivem cercados por ecos de suas próprias opiniões, e se distanciam da realidade.
Nesse ambiente, críticas construtivas são vistas como deslealdade, e o bajulador, ainda que medíocre, ganha espaços que não lhe pertencem por mérito.
Essa prática tem impactos profundos. Instituições inteiras são enfraquecidas quando bajuladores sobem na hierarquia. Eles não trazem inovação nem competência, mas apenas o peso da conveniência.
Enquanto isso, talentos reais são ignorados, e o senso de justiça é substituído por uma lógica de favoritismo. Aos poucos, o ambiente se transforma em um jogo de aparências, onde o que importa não é o que se faz, mas o quanto se agrada.
O problema da bajulação não está apenas em quem a pratica, mas também em quem a aceita. A ascensão do bajulador é de alguma forma, reflexo de líderes inseguros, que preferem ser adulados a serem desafiados.
É preciso coragem para recusar os elogios fáceis e valorizar a crítica honesta. É necessário discernimento para distinguir quem é genuíno de quem é oportunista.
Doutra forma, podemos analisar a bajulação como um sintoma de sistemas frágeis, onde valores são negociáveis e interesses pessoais se sobrepõem ao bem coletivo.
No entanto, romper com essa lógica exige uma mudança cultural profunda. Precisamos de líderes que inspirem respeito, não idolatria, e de colaboradores que promovam ideias, não interesses.
Só assim poderemos criar espaços onde o mérito prevaleça, e onde "Chefe, não me esquece" seja substituído por "Parabéns pelo trabalho bem feito, conte comigo para melhorar ainda mais".
Categoria:
Editorial
