EDITORIAL: Mimos do Presidente JLO para Cabinda antes do Natal
A descontinuidade geográfica de Cabinda sempre transformou a mobilidade num dos maiores desafios sociais e económicos da província. A dependência das vias aérea e marítima para a ligação ao restante território nacional faz com que qualquer oscilação no transporte de passageiros e carga tenha impacto direto no custo de vida e no bem-estar das famílias.
Por isso, a convergência entre o reforço da frota marítima com o ferryboat Tchiowa e a alteração do modelo de venda de bilhetes da TAAG surge como uma resposta relevante e oportuna na antevéspera da quadra festiva. Trata-se de um período em que assistimos repetidamente ao "filme da escassez de lugares", no qual a população atua como figurante e as agências como convidadas especiais, numa produção do Ministério dos Transportes.
No mar, a aquisição da embarcação Tchiowa representa um avanço operacional de grande escala. Com capacidade para 630 passageiros, 168 viaturas e 649 toneladas de carga, o novo meio operado pela SECIL Marítima estabelece uma ponte sólida entre Cabinda e o Soyo, capaz de aliviar a asfixia logística, baratear o frete de mercadorias e oferecer uma alternativa real ao transporte aéreo. Resta saber qual será a frequência das viagens.
No ar, a decisão da TAAG de restringir a comercialização de bilhetes aos seus canais oficiais protege a tarifa subsidiada pelo Estado. Contudo, para que a medida produza o efeito desejado, a companhia aérea de bandeira precisa de ir além do anúncio do novo modelo e exercer uma verdadeira depuração interna.
São públicas e recorrentes as denúncias sobre um alegado esquema enraizado na própria estrutura da empresa, no qual trabalhadores manteriam ligações ou participações diretas em agências de viagens privadas, promovendo o bloqueio sistemático de lugares para alimentar o mercado paralelo e a especulação de preços.
Para que a intenção política do Executivo se traduza em benefício real, a TAAG tem a obrigação ética e institucional de fazer valer a sua posição com auditorias severas, responsabilização disciplinar e tolerância zero a esquemas internos de cumplicidade.
As vias aérea e marítima são as únicas que ligam Cabinda de forma direta ao resto do país, pelo que precisam de funcionar de forma integral, transparente e eficiente.
Só com a moralização efetiva nos balcões da aviação e com a regularidade na navegação de cabotagem é que os "mimos" do Presidente João Lourenço farão verdadeiramente sentido na vida dos cidadãos.
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