EDITORIAL: 10 Sacos de cimento valem um salário mínimo em Cabinda
Isolada do resto do território nacional por fronteiras terrestres e dependente de uma complexa e, por vezes, ineficiente cadeia logística aérea e marítima, a população de Cabinda habituou-se a pagar uma "taxa fora do normal" em quase tudo o que consome.
No entanto, entre os sectores em que essa assimetria mais se faz sentir está o da construção civil, em particular no preço do cimento. Ver o saco atingir a fasquia sufocante de até 10.000 kwanzas nos mercados e estabelecimentos revendedores locais deixou de ser uma oscilação pontual para se tornar uma barreira intransponível.
Para o cidadão comum, que constrói a sua casa "bloco a bloco", fruto do seu trabalho, este valor representa estagnação. Representa a paralisação no alicerce, a viga que não se consegue encher e o sonho da casa própria adiado por tempo indeterminado.
É bem verdade que o Governo tem trabalhado na construção de projectos habitacionais e centralidades pelo país. Contudo, a resposta pública está longe de cobrir o défice habitacional real da população. Nem todos se enquadram nos critérios de acesso, e a esmagadora maioria dos cabindenses prefere e precisa de edificar a sua própria residência, ao seu ritmo e de acordo com a sua capacidade financeira.
A dependência do cimento vindo de Luanda perante as condições logísticas por todos conhecidas ou das importações transfronteiriças, sujeitas a variações cambiais e taxas aduaneiras, transformou o sector imobiliário local num cenário de incertezas.
Em consequência disso, mestres pedreiros foram dispensados, empreiteiros locais faliram e a autoconstrução tornou-se um privilégio de poucos. Por isso, a intenção da Nova Cimangola de instalar uma unidade industrial com capacidade para 200 mil toneladas por ano chegou como um sopro de alívio. Porém, há quem diga que se trata do sopro de um "rato roedor", pois já se ouviram promessas semelhantes.
Ainda assim, é preciso dar o benefício da dúvida, até porque não se trata de uma fábrica construída de raiz. A iniciativa passa pela criação de uma moagem local que será abastecida por calcário e gesso da própria província e reforçada pela futura operacionalização do Porto de Águas Profundas do Caio.
Contudo, para evitar esse compreensível clima de ceticismo, alimentado por anúncios não concretizados, a comissão técnica mista criada entre a Cimangola e as autoridades locais precisa de começar a apresentar resultados visíveis.
Baratear o cimento em Cabinda é muito mais do que um indicador macroeconómico: significa dinamizar o emprego jovem na construção, destravar milhares de obras familiares paradas e dar dignidade ao cidadão que se recusa a viver à espera que o Estado lhe entregue uma chave na mão.
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