EDITORIAL: O Vazio no trono e o futuro do F.C de Cabinda no Girabola 2026-2027
O futebol é fertilizado pela ironia do destino. Prepara-se o Futebol Clube de Cabinda para cruzar a porta de entrada do Olimpo do futebol nacional, um regresso ao Girabola ansiosamente aguardado há 15 longos anos e, no exato instante em que as luzes do palco principal se acendem, o holofote central apaga-se.
A renúncia formal de Raimundo de Almeida "Dinho de Almeida", oficializada a 17 de julho de 2026, encerra um mandato de seis anos moldado pelo sacrifício, pela gestão de recursos escassos e pela travessia do deserto.
Tal como se leu na nota que dava conta da renúncia, Dinho de Almeida deixa o cargo com a serenidade de quem cumpriu a missão de devolver o orgulho aos adeptos, ciente de que na liderança de uma instituição com esta dimensão há fardos que não se carregam sozinho. Mas o tempo do futebol não concede espaço para o luto administrativo.
O apito inicial da grande competição aproxima-se, e a cadeira máxima do Clube da Rua da Polícia está subitamente vazia. Diante desta realidade, todos os olhares convergem para a estrutura interna. É impossível falar do recente percurso do clube sem evocar a figura de Victor João.
O Vice-Presidente para o Futebol tornou-se, ao longo dos momentos mais dramáticos e decisivos da caminhada de regresso, na encarnação da própria alma do emblema. Vimo-lo chorar. Vimo-lo entregar-se de corpo e alma nas bancadas e nos balneários, transpirando a mesma angústia e a mesma paixão do adepto mais ferrenho.
Será Victor João o homem capaz de fazer a transição do motor emocional do balneário para a estrutura administrativa da instituição? A simpatia e o respeito de que goza junto da massa associativa e da falange de apoio dos Gorilas do Norte constituem um capital político e moral inestimável.
Contudo, presidir ao Futebol Clube de Cabinda no topo do futebol angolano exige mais do que paixão; exige pragmatismo, diplomacia e pulso firme para manter a família desportiva coesa no meio da tempestade competitiva do "exigente" Girabola. Estará ele disposto a assumir esse desgaste e carregar a responsabilidade maior?
Afinal, garantir a subida ao Girabola foi uma proeza desportiva; mas permanecer nele é uma equação financeira e logística bastante complexa. A especificidade geográfica da província de Cabinda impõe constrangimentos únicos no contexto do futebol angolano.
Numa altura que assistimos a uma maratona de cancelamentos de voos pela Companhia de Bandeira Nacional, cada deslocação fora de portas implica travessias aéreas constantes, custos de transplante de delegações, gestão rigorosa do desgaste físico e planos de recuperação de atletas que poucas equipas do continente enfrentam com tanta frequência. Terá a equipa apoios suficientes para garantir estabilidade financeira durante a prova?
O apoio demonstrado pelo Governo Provincial de Cabinda, pela CABSHIP, pelo Grupo Apolónia, pelos adeptos e a todas as forças vivas da região foi crucial para alcançar a elite. Mas no Girabola, os custos multiplicam-se. A manutenção destas alianças estratégicas e a atracção de novos investidores será a verdadeira linha de vida do clube.
A estratégia para não ser um mero figurante no campeonato nacional terá de passar por transformar as oportunidades em negócios, começando pelo o Estádio do Tafe (agora em obras) fazendo com que em cada jogo, o calor da bancada e o peso da camisola compensem as assimetrias orçamentais em relação aos crónicos candidatos ao título.
Se quisermos uma equipa coesa é importante ter em conta; à medida que o relógio avança e a pré-época exige definições urgentes de plantel, orçamentos e equipa técnica, várias incógnitas flutuam sobre o ar úmido e expetante de Cabinda: Com a renúncia de "Dinho de Almeida, haverá consenso ou rutura?
A Assembleia Geral conseguirá mobilizar uma transição pacífica e galvanizadora, ou o clube cairá numa espiral de incerteza eleitoral às portas do campeonato?
A massa associativa pressionará a continuidade da liderança através do seu elemento mais apaixonado, ou surgirá uma terceira via empresarial disposta a injetar capital na estrutura?
O entusiasmo do regresso após 15 anos de ausência será suficiente para blindar o grupo de trabalho perante os inevitáveis momentos de crise ao longo das 30 jornadas da prova?
Independentemente de cada resposta, o passado recente provou que a chama do clube se recusa a apagar; o futuro imediato dirá se a instituição tem a estrutura, a visão e a coragem necessárias para reescrever com letras douradas o seu nome na elite do futebol angolano.
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Editorial
