Editorial: O Míssil de Pólvora Seca - O Processo 58% e o "Quarto Poder" alvejado


A tarde de 21 de janeiro de 2026 ficará gravada na memória do sindicalismo angolano não pela eficiência, mas pelo simbolismo do descaso. Uma reunião agendada para as 10h00, reagendada para as 13h00 e iniciada apenas às 15h10, é o retrato fiel da desvalorização daqueles que têm como ofício observar o tempo e narrar a história.

​O hiato de cinco horas de espera nos corredores do MAPTSS foi a metáfora perfeita para a condição do jornalista angolano: um profissional que aguarda, exausto, por uma dignidade que parece permanentemente "reagendada" por conveniências administrativas.

​O Desvio de trajetória

​O título deste processo, que carrega a promessa dos 58%, assemelha-se agora a um míssil de longo alcance que, após o disparo, perdeu o curso. O "Quarto Poder", outrora respeitado como o cão de guarda da democracia, revela-se hoje um gigante com pés de barro. Suas munições estão desgastadas por uma precariedade que é tanto económica quanto moral.

​O resumo do encontro revelou uma realidade nua e crua: a progressão na carreira não possui trilhos certos; é um labirinto semântico. A média de 27% para a progressão, embora vendida como uma conquista, é, na verdade, um travão de mão puxado.

O Etarismo como barreira

​A questão dos requisitos de avaliação é a maior fragilidade exposta. A sugestão de priorizar funcionários por antiguidade, em detrimento do mérito e da necessidade de renovação, soa como um grito de socorro contra um etarismo corporativo que ameaça transformar a experiência em passivo financeiro e a juventude em mão de obra descartável.

​O "Processo 58%" corre o risco de se tornar um monumento à ineficiência. O combustível da valorização real do capital humano está a ser drenado por discussões procedimentais estéreis. Entre a expectativa e o contracheque, a conta não fecha. O que os jornalistas relatam hoje não é progressão, mas agressão à paciência, às expectativas e à própria subsistência.

Crise de liderança

​Nos bastidores, o descontentamento não é apenas um sussurro; é um clamor que ameaça paralisar o país. O foco da revolta agora recai sobre a figura de Pedro Miguel, Secretário-Geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA). Falta de transparência nas negociações com o MAPTSS e empresas públicas, descontos considerados indevidos que estão a devastar o orçamento dos profissionais neste mês de Abril estão entre as motivações dos profissionais.

​Como se diz na gíria das apostas, "as fichas dos jornalistas estão molhar". O rastilho foi aceso. Se o "míssil" do 58% não atingiu o Poder para trazer justiça salarial, ele parece estar a retornar à base, ameaçando uma destituição interna e uma greve geral.

Quantos capítulos mais serão necessários para vermos aquele final feliz que assistimos nas novelas? 

KUTUNGA MÍDIA - Informação que constrói.