EDITORIAL: Mobilidade - O tempero que pode faltar ao Porto do Caio

Imagem Ilustrativa 

O anúncio do concurso internacional para a concessão do Porto de Águas Profundas do Caio foi recebido com o entusiasmo que a magnitude do projecto justifica.

Contudo, para quem conhece a geografia e a realidade infraestrutural de Cabinda, o entusiasmo deve ser acompanhado por uma dose de pragmatismo crítico. O Porto do Caio é a "jóia da coroa", mas corre o risco de perder o brilho se não for acompanhado por uma revolução na mobilidade terrestre.

A questão que o PORTAL KUTUNGA MÍDIA coloca hoje é direta: como será feita a evacuação das milhares de toneladas de carga que o porto promete atrair?

Actualmente, a espinha dorsal da província é a Estrada Nacional n.º 100 (EN-100). Embora vital, não existem garantias suficientes de que esta via corresponda à demanda de um porto de águas profundas.

Imagine o fluxo de camiões pesados a cruzar as zonas urbanas e suburbanas, partilhando a via com o trânsito citadino e escolar. O resultado será, inevitavelmente, o congestionamento, a degradação acelerada do asfalto e, quiçá o aumento da sinistralidade.

Para que o Porto do Caio seja verdadeiramente competitivo no contexto regional atraindo carga para os países vizinhos, Cabinda necessita de alternativas de transporte de massa.

Talvez o tempo seja curto demais, mas uma linha férrea seria o "pulmão" do projeto, ligando os extremos Norte e Sul da província. O comboio é o meio mais eficiente e barato para o transporte de contentores e madeira a granel, retirando a pressão insustentável sobre as nossas estradas.

Se a ferrovia ainda parece um projecto distante, a construção de uma via expressa que contorne os centros populacionais não seria um luxo, mas uma necessidade operacional. Sem um corredor de circulação rápida, a "fluidez" do projecto poderá ter limitações.

Talvez seja este o momento oportuno para o Executivo resgatar e tirar definitivamente do papel o projecto da Marginal de Cabinda. Mais do que uma obra estética ou turística, uma marginal integrada numa estratégia de mobilidade urbana, poderia funcionar como uma válvula de escape para o tráfego pesado e ligeiro, descongestionando o centro da cidade e ligando de forma mais eficaz o porto às principais saídas da província.

O Porto do Caio é um projeto estruturante, mas a logística não se faz de compartimentos isolados. Se o porto avançar a uma velocidade e a infraestrutura de evacuação permanecer estagnada, criaremos um desequilíbrio que pode comprometer o retorno do investimento.

O "tempero" que falta a esta grande obra é a conectividade. Entendemos que o caderno de encargos da província de Cabinda para os próximos anos deve incluir, obrigatoriamente, a revisão do Plano de Mobilidade.

A principal reflexão que trazemos é; não basta ter um porto moderno, se ficarmos presos num engarrafamento à saída do cais.