EDITORIAL: Mil milhões de razões para a indignação e investigação profunda no FAS
O suposto desvio de mil milhões de kwanzas no seio do Fundo de Apoio Social (FAS) em Malanje não é apenas um número numa folha de balanço criminal; é um sismo que abala a confiança dos mais vulneráveis no Estado.
A detenção de Gomes António Golombole, agora sob custódia no Estabelecimento Penitenciário de Malanje, levanta o véu sobre uma realidade sombria; enquanto o Governo anuncia o "Kwenda" como a salvação das famílias rurais, a ganância de quem deveria gerir esse apoio parece estar a devorar a esperança de quem tem fome.
Este montante colossal, subtraído entre 2023 e 2025 através de métodos fraudulentos, representa milhares de transferências que nunca chegaram ao seu destino. São alimentos que não foram comprados, negócios que não tiveram pontapé de saída e, acima de tudo, dignidade que foi roubada.
Se o poder sem socialização é cego como refletimos anteriormente, o poder sem ética é puramente criminoso. O FAS foi concebido para ser o braço estendido do Estado até às zonas mais recônditas, mas em Malanje, descobrimos que esse braço estava ocupado a servir interesses de uma "associação criminosa" (segundo o SIC).
O caso de Malanje não pode ser visto como um incidente isolado. Por todo o país, multiplicam-se os relatos de cidadãos inscritos no programa Kwenda que contestam a falta de pagamentos. As explicações dadas pelas direções locais do FAS são, muitas vezes, vazias, técnicas e desprovidas de empatia.
O KUTUNGA MÍDIA questiona: Quantos "Kaites de Facto e Gravata" estarão ainda escondidos sob a capa de gestores zelosos?
A justiça angolana, através do SIC e da PGR, precisa de ir mais fundo. Não basta cortar o galho podre em Malanje; é preciso inspeccionar toda a árvore do FAS a nível nacional. O silêncio administrativo perante as reclamações dos beneficiários pode ser o fumo que indica onde está o fogo da corrupção.
É urgente que as autoridades realizem uma auditoria independente e profunda a todos os centros de cabimentação do Kwenda. A mão que foi desenhada para apoiar não pode ser a mesma que "na calada da noite" e sob o brilho de esquemas fraudulentos, se fecha para roubar o pão de quem já nada tem.
Que este caso de Malanje sirva de aviso a todos os gestores públicos: o dinheiro do vulnerável é sagrado. Quem o toca, trai não apenas a lei, mas a própria essência da humanidade.
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